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Saúde

Setembro Amarelo e Verde: saúde mental, inclusão e neurodiversidade

Duas campanhas que nos convidam a escutar, remover barreiras e construir ambientes onde cada pessoa possa pedir ajuda e participar com autonomia.

01 de setembro de 2026 · 12 min de leitura

Setembro Amarelo e Setembro Verde nos convidam a olhar para duas questões fundamentais: a saúde mental e a inclusão. Quando falamos de neurodiversidade, essas pautas se encontram em um ponto essencial: a construção de ambientes em que as pessoas possam ser respeitadas, acolhidas, ter acesso a suporte e participar da sociedade com autonomia.

Grupo diverso de pessoas reunidas em um ambiente acolhedor
Cuidado, acessibilidade e pertencimento são responsabilidades coletivas.

Setembro é marcado por importantes campanhas de conscientização. O Setembro Amarelo amplia o diálogo sobre prevenção do suicídio e valorização da vida. O dia 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Já o Setembro Verde, em iniciativas voltadas à pessoa com deficiência, promove a conscientização sobre inclusão, acessibilidade, direitos e enfrentamento ao capacitismo. O dia 21 de setembro é o Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência.

Para quem trabalha com neurodiversidade, saúde mental e inclusão, existe uma conexão importante entre essas discussões. Não porque neurodivergência seja sinônimo de sofrimento mental ou de deficiência, mas porque pessoas neurodivergentes, assim como todas as pessoas, podem vivenciar sofrimento psíquico e também podem encontrar barreiras sociais, comunicacionais, ambientais e atitudinais que impactam sua qualidade de vida.

Setembro Amarelo

Valoriza a vida, amplia o diálogo sobre saúde mental e reforça a importância da escuta, das redes de apoio e do cuidado profissional.

Setembro Verde

Promove os direitos das pessoas com deficiência, a acessibilidade, a autonomia e o enfrentamento ao capacitismo.

O que é o Setembro Amarelo?

O Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização voltada à prevenção do suicídio e à valorização da vida. O Ministério da Saúde destaca que o suicídio é um fenômeno complexo, multifatorial e que pode atingir pessoas de diferentes contextos. Por isso, não existe uma explicação única ou uma maneira simples de identificar uma pessoa em risco.

A prevenção passa por ampliar o acesso ao cuidado, reduzir estigmas, reconhecer situações de sofrimento e fortalecer redes de apoio. Também passa por uma atitude aparentemente simples, mas muito importante: escutar. Quando alguém demonstra sofrimento intenso, oferecer uma escuta sem julgamentos pode ser um primeiro passo para aproximar essa pessoa de ajuda.

Isso não significa assumir o papel de profissional de saúde mental. Significa não ignorar o sofrimento.

Neurodiversidade e saúde mental: precisamos separar conceitos

Um dos cuidados mais importantes ao falar sobre neurodiversidade e saúde mental é não confundir conceitos. Autismo, TDAH, dislexia, altas habilidades/superdotação e outras condições do neurodesenvolvimento não devem ser automaticamente tratados como transtornos mentais. Da mesma forma, ser neurodivergente não significa estar permanentemente em sofrimento.

A experiência de cada pessoa é única.

Entretanto, pessoas neurodivergentes podem apresentar necessidades específicas de suporte e também podem desenvolver condições de saúde mental, assim como qualquer outra pessoa. Além disso, determinadas experiências sociais podem aumentar a sobrecarga:

  • bullying e rejeição;
  • discriminação;
  • isolamento social;
  • falta de acessibilidade;
  • sobrecarga sensorial;
  • dificuldades de comunicação;
  • necessidade constante de adaptação;
  • ambientes pouco previsíveis;
  • incompreensão das necessidades individuais;
  • pressão para esconder características ou necessidades para se adequar a um padrão.

Isso nos convida a mudar uma pergunta. Em vez de olhar somente para o indivíduo e perguntar “O que há de errado com essa pessoa?”, podemos perguntar: “Quais barreiras essa pessoa está enfrentando?” Essa mudança de perspectiva é fundamental para uma abordagem verdadeiramente inclusiva.

O que é Setembro Verde?

No contexto das campanhas de inclusão da pessoa com deficiência, o Setembro Verde busca ampliar a conscientização sobre direitos, acessibilidade, participação social e combate ao capacitismo. O Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência é celebrado em 21 de setembro, data instituída pela Lei nº 11.133/2005.

A pauta envolve muito mais do que adaptar espaços físicos. Inclusão também significa garantir:

  • acessibilidade comunicacional;
  • acessibilidade digital;
  • autonomia;
  • participação;
  • igualdade de oportunidades;
  • respeito às diferenças;
  • acesso à educação;
  • acesso ao trabalho;
  • participação social;
  • combate à discriminação.

A Prefeitura de Belo Horizonte, por exemplo, destaca em sua campanha Setembro Verde 2026 a necessidade de reconhecer e enfrentar barreiras e o capacitismo, valorizando o protagonismo das pessoas com deficiência.

O que é capacitismo?

Capacitismo é o preconceito ou a discriminação contra pessoas com deficiência, frequentemente baseado na ideia de que determinadas pessoas são menos capazes, menos autônomas ou menos valiosas. Ele pode aparecer de maneira explícita, mas também pode estar presente em comportamentos cotidianos.

Por exemplo:

  • presumir que uma pessoa não é capaz antes de conhecê-la;
  • falar com um acompanhante em vez de falar diretamente com a pessoa;
  • infantilizar adultos com deficiência;
  • considerar adaptações como privilégios;
  • excluir alguém de uma atividade por pressupor que não conseguirá participar;
  • tratar produtividade como medida absoluta do valor de uma pessoa;
  • exigir que todos trabalhem, aprendam ou se comuniquem exatamente da mesma maneira.

Combater o capacitismo é parte da construção de ambientes mais inclusivos.

Neurodiversidade também faz parte da conversa sobre acessibilidade

A neurodiversidade amplia nossa compreensão sobre as diferentes formas de funcionamento do cérebro humano. Na prática, isso significa reconhecer que pessoas podem apresentar diferentes formas de processar informações, aprender, se comunicar, organizar tarefas, lidar com estímulos sensoriais, estabelecer relações, demonstrar conhecimento e responder às demandas ambientais.

Por isso, acessibilidade não é necessariamente igual para todas as pessoas. Uma adaptação que funciona para alguém pode não funcionar para outra pessoa. Uma pessoa pode precisar de recursos de comunicação; outra pode precisar de redução de estímulos sensoriais; outra pode se beneficiar de instruções mais objetivas e previsíveis; outra pode precisar de flexibilidade na organização das atividades. A inclusão começa quando deixamos de procurar uma solução única para pessoas diferentes.

Saúde mental, inclusão e pertencimento

Existe uma palavra que conecta as discussões do Setembro Amarelo e do Setembro Verde: pertencimento. Sentir que existe espaço para ser quem somos. Ter possibilidade de expressar necessidades. Ser tratado com respeito. Ter acesso a cuidados. Poder participar. Ter autonomia. Saber que pedir ajuda não significa fracassar.

Esses elementos não eliminam os problemas de saúde mental e não permitem afirmar que inclusão, por si só, previne o suicídio. Mas ambientes mais acolhedores e acessíveis podem contribuir para reduzir barreiras, ampliar redes de apoio e favorecer condições mais saudáveis de participação social. A prevenção precisa ser compreendida de maneira ampla, e isso inclui olhar para o contexto em que as pessoas vivem.

“Pertencer também é uma forma de cuidado.”

Saúde mental e neurodiversidade no trabalho

Essa discussão também é fundamental para as organizações. Uma empresa pode contratar pessoas neurodivergentes e, ainda assim, não ser verdadeiramente inclusiva. Inclusão não termina na contratação. Ela envolve a experiência da pessoa ao longo de toda a jornada profissional:

  • Recrutamento: processos que não criem barreiras desnecessárias.
  • Onboarding: informações claras, previsibilidade e acolhimento.
  • Gestão: lideranças preparadas para reconhecer diferentes necessidades.
  • Comunicação: diferentes formas de transmitir informações.
  • Ambiente: atenção a estímulos sensoriais e fatores que podem gerar sobrecarga.
  • Desenvolvimento: oportunidades reais de crescimento.
  • Acessibilidade: adaptações e recursos adequados às necessidades individuais.
  • Saúde mental: atenção aos fatores que podem contribuir para sofrimento e adoecimento.

Esse último ponto ganha ainda mais importância diante da discussão sobre riscos psicossociais no trabalho. Cuidar da saúde mental não pode significar simplesmente ensinar o trabalhador a suportar ambientes que permanecem adoecedores. Também é necessário olhar para a organização do trabalho, as relações, as condições e as barreiras existentes.

Como promover inclusão e cuidado na prática?

Não existe uma única ação capaz de transformar uma cultura. Mas algumas atitudes podem fazer diferença:

  1. Escute sem presumir. Pergunte à pessoa do que ela precisa. Não presuma que você sabe o que é melhor para ela.
  2. Crie espaços seguros para pedir ajuda. Uma pessoa precisa saber que pode comunicar uma dificuldade sem ser imediatamente julgada como incompetente ou descomprometida.
  3. Observe as barreiras. Pergunte: quem está conseguindo participar? E também: quem está precisando fazer um esforço desproporcional para conseguir participar? Essa segunda pergunta pode revelar barreiras que normalmente permanecem invisíveis.
  4. Combata o capacitismo. Não normalizar piadas, estereótipos ou comportamentos discriminatórios também é uma forma de inclusão.
  5. Ofereça acessibilidade. Acessibilidade deve ser pensada desde o início, e não apenas quando alguém apresenta uma dificuldade.
  6. Incentive a busca por ajuda profissional. Escuta, acolhimento e redes de apoio são importantes, mas não substituem avaliação e acompanhamento profissional quando necessários.

O que fazer diante de uma situação de risco?

Se alguém demonstra sofrimento intenso ou fala sobre vontade de morrer, é importante levar a situação a sério. O Ministério da Saúde orienta que, diante de uma pessoa sob risco, é importante conversar em um local tranquilo, ouvir sem julgamentos, oferecer apoio e incentivar a busca por profissionais e serviços de saúde. Em uma situação de perigo imediato, a pessoa não deve ser deixada sozinha e deve-se procurar atendimento de emergência.

No Brasil, o CVV – Centro de Valorização da Vida atende pelo telefone 188. Em situações de emergência, procure os serviços de urgência e emergência disponíveis na sua região.

Setembro Amarelo e Setembro Verde: duas campanhas, um compromisso

Setembro Amarelo nos lembra da importância de falar sobre saúde mental, sofrimento e prevenção do suicídio. Setembro Verde, quando dedicado à pauta da pessoa com deficiência, nos lembra da importância de inclusão, acessibilidade, autonomia e combate ao capacitismo.

Para a neurodiversidade, essas discussões podem caminhar juntas. Porque uma sociedade mais inclusiva precisa ser capaz de ouvir. Uma organização inclusiva precisa ser capaz de adaptar. Uma escola inclusiva precisa ser capaz de reconhecer diferentes formas de aprender. Uma família acolhedora precisa ser capaz de respeitar diferentes formas de existir. E uma rede de cuidado precisa ser capaz de reconhecer quando alguém precisa de ajuda.

Neurodiversidade não é sobre fazer todas as pessoas caberem no mesmo padrão. É sobre reconhecer diferenças, reduzir barreiras e construir condições para que cada pessoa possa participar com dignidade, autonomia e respeito.

Neste Setembro Amarelo e Setembro Verde, o convite é simples: escute mais, presuma menos, remova barreiras, combata o capacitismo, fale sobre saúde mental e não deixe ninguém enfrentar o sofrimento sozinho. Porque informação é importante. Acessibilidade é importante. Cuidado é importante. E pertencer também é uma forma de cuidado.

Precisa de apoio?

Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou tratamento realizado por profissionais habilitados. Se você ou alguém próximo estiver vivenciando sofrimento intenso, procure ajuda profissional e uma rede de apoio. Em situações de risco imediato, procure um serviço de emergência. O CVV atende pelo telefone 188, oferecendo apoio emocional e prevenção do suicídio.

Referências

Conteúdo elaborado para fins educativos e de conscientização.

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